Excerto, uma memória perdida

By 10:52 PM

Eu estava em uma montanha, cercada por arvores gigantescas e todos os tipos de flores em suas mais variadas cores, o chão era coberto por um tapete de pétalas, o cheiro de terra se espalhava pelo ar. O céu estava azul, meus olhos arderam ao tentar fita-lo. O sol parecia tão perto de mim que ergui minha mão na tentativa de tocá-lo, eu sorri por minha atitude tola. O vento era suave, mesmo com a altitude consideravelmente alta... eu estava deslumbrada com aquele lugar, embora eu não soubesse o porque de eu estar ali. Dei alguns passos até a beirada e avistei uma cachoeira, que seguia até um pequeno riacho. Os raios de sol refletiam-se na água cristalina, criando uma nuance de cores no ar.

Sentei em uma pedra por um tempo, maravilhada por toda aquela perfeição. Onde eu estava?
Em seguida, senti uma forte brisa roçar em minha pele, virei-me em curiosidade. Uma neblina densa cobria minha visão, eu não podia ver o que havia no outro lado da montanha, a escuridão era assustadora e oposta ao paraíso no qual eu estava agora. O céu era escuro do outro lado, eu podia avistar os relâmpagos ao longe. As arvores moviam-se violentamente com o vento e os sons vindo da área anuviada me lembravam sofrimento, eu não podia entender o que os sons eram, mas eles de fato me aterrorizavam completamente.

Eu continuava a me perguntar como duas regiões tão próximas podiam ser tão opostas. Por um minuto eu me senti tentada a atravessar a neblina, meramente por curiosidade, mas algo dentro de mim me dizia “Não” e eu decidi ouvir à voz. Mas a estranha paisagem prendeu minha atenção por alguns minutos.

Ouvi uma voz chorosa e não consegui entender o que ela dizia, parecia tão distante de mim, tentei focar-me nela para descobrir o que era, soava como a voz de minha mãe em desespero. Olhei ao redor, imaginando de onde aquilo viria, mas, não havia nada ali além de mim.

O vento uivava e acariciava meu pescoço e minha cabeça novamente virou-se para a neblina. Dessa vez, fui surpreendida com a presença de um homem que estava estático na neblina, e embora ele estivesse longe de mim, eu pude reconhecer sua face. Eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar. Era Joe, meu eterno amor. Senti arrepios transcorrerem meu corpo à medida que minha mente voava no tempo, há alguns anos atrás.

Sempre sonhei com meu príncipe encantado vindo me salvar em seu cavalo branco, devido a isso, tive minha cota de relacionamentos fracassados, na maioria das vezes por esperar muito deles e no fim notar que não eram nada alem de entediantes... então, parte de mim sabia que eu nunca encontraria o amor da minha vida, ao menos não o que eu via em meus sonhos.

Era uma noite fria de verão, eu havia ido à praia com uma amiga para assistirmos a um show. Nunca fui fã de praias, principalmente no verão, quando o sol queimava minha pele como fogo. Eu não queria ir ao show, mas minha amiga não me deu a opção de dizer não.

Na entrada, um homem mais velho, com seus 30 anos, se aproximou de nós. Ele era alto, seus cabelos eram castanho claro, mas eu podia notar algumas mexas brancas escondidas. Ele era magro, mas seus braços expunham músculos, de uma pessoa que ocasionalmente se exercitava devido a necessidade. Ele segurava um violão em seu braço esquerdo e seu sorriso poderia iluminar uma sala inteira.
Ele perguntou se sabíamos onde era à entrada dos músicos, seus olhos verdes pareciam extremamente perdidos. Ele não era excepcionalmente bonito, mas havia algo em sua face que me instigava e eu senti que o sentimento era mutuo, seus olhos estavam fixos nos meus, ele provavelmente havia sequer notado a presença da minha amiga ao meu lado. O respondi dizendo que não e ele pareceu frustrado por estar perdido, mas nos agradeceu e seguiu por outro corredor, senti uma tristeza em meu corpo, eu provavelmente não o veria nunca mais.

O teatro era grande, o que me surpreendeu, pois, nunca imaginei que teriam algo desse nível na praia. A parte interna estava lotada com todos os tipos de pessoas. Rostos curiosos, esperando para assistir aos vários shows que aconteceriam nas próximas 2 horas. A maioria dos cantores não eram famosos, com isso, ninguém sabia o que exatamente esperar. Eu, diferente de minha amiga, nunca fui fanática por shows musicais, mas conclui que mudar a minha rotina seria no mínimo recompensador. Sentamos-nos na segunda fileira, que se localizava bem perto do palco, o que não me agradava, pois, quanto mais perto, mais alto o som seria.

Os primeiros dois músicos não me entreteram, me senti entediada por todo o período no qual eles cantaram. Eu não conseguia controlar os bocejos e eu esperava que eles não os notassem, eu sei que eu me sentiria definitivamente mal se eu avistasse pessoas bocejando em meu show. As apresentações haviam finalmente acabado e eu aplaudi, não por ter gostado, mas porque eles finalmente partiam.

Outros cantores entediantes vieram depois desses, alguns eram melhores, outros ainda piores. E finalmente era a hora da ultima apresentação, uma leve sensação de empolgamento surgiu em minha mente, eu não via a hora de ir embora. E o homem que me abordara mais cedo, agora entrava no palco e, por algum razão que eu desconhecia, um enorme sorriso se abriu em meu rosto. Após alguns passos, ele me avistou na platéia e retribuiu o sorriso, acenando sua cabeça em um Olá. Senti um extase em meu peito, como se naquele momento eu me tornara alguém especial, haviam tantas garotas sentadas ali, algumas gritavam por acharem-no bonito, mas ele apenas olhava para mim, ninguém alem de mim.

Ele caminhou tranquilamente ate o microfone e uma voz suave ecoou pelo salão. “Obrigado a todos por nos dar a oportunidade de compartilhar nossos talentos essa noite. Agora, cantarei uma de minhas musicas preferidas e eu gostaria de dedicá-la a uma linda mulher da platéia”, eu franzi o cenho e uma enorme sensação de frustração dominara meu corpo. Ele tem namorada, pensei enquanto sacudia minha cabeça desapontada. Mas quase desmaiei quando ele apontou seu dedo em minha direção, “Você”. Seu rosto estampava um lindo sorriso e não contive em retribuí-lo, com minhas bochechas coradas. Eu senti todos os olhos voltados para mim, alguns revoltados, mas mantive meu olhar fixo no palco, ignorando-os.

Ele sentou em um banquinho minúsculo de madeira e começou a tocar, não era apenas a musica favorita dele, era a minha também “Edwin Mccain – I’ll be”.
Sua voz rouca ecoava por todo o teatro, fechei meus olhos à medida que as notas do violão invadiam meus ouvidos, senti as lagrimas se formando em meus olhos. Eu nunca ouvira algo tão lindo em toda minha vida, sua voz aveludada enquanto ele gentilmente deslizava os dedos no violão. Nossos olhares mantiveram-se fixos um no outro. Minha amiga se remexia na cadeira ao lado, histérica, ela gritava constantemente “Ele gosta de você, ele está apaixonado por você. Olhe, ele não consegue tirar os olhos de você”. Eu mal ouvia ao que ela dizia, eu estava extremamente hipnotizada.

Ele só teve tempo para tocar uma musica, os outros músicos ultrapassaram seus horários, o que acabou arruinando seu show. Senti-me desapontada ao vê-lo sair do palco, eu o veria novamente? Esse foi o relacionamento não-existente mais rápido que já tive? Sacudi a cabeça em frustração, eu não podia aceitar que ele iria embora.
Fiquei ali por um tempo, esperando que um milagre o trouxesse de volta, mas nada aconteceu, minha amiga se levantou e agarrou meu braço impaciente. Lancei um olhar repreensivo na direção dela e ela o ignorou, tinhamos que ir, eu não poderia ficar ali a noite toda, tudo havia acabado.

Andamos ate o corredor entre os assentos e enquanto caminhavamos rumo à saída, uma mão quente agarrou meu braço e me puxou. Me virei e o sorriso perfeito dele agora estava diante de mim novamente, ele me entregou um pedaço de papel, o abri, continha seu nome e telefone. “Me ligue” ele disse sorrindo, enquanto se virava para ir embora, ele parou por um momento e virou-se para me olhar novamente, “A propósito, qual seu nome?”, eu estava imóvel, eu não conseguia achar as palavras certas para responde-lo. “O nome dela é Melissa” disse minha amiga rindo. Ele retribuiu o riso e correu de volta para o corredor, “Me ligue” ele gritou outra vez enquanto desaparecia no meio da multidão. Senti-me tão feliz que eu não conseguia esconder minha empolgação, minha amiga me cutucava o tempo inteiro, tirando sarro da situação.

- Então, vai ligar pra ele? – ela perguntou curiosa.
- Não sei, acho que sim. – respondi, eu ainda não conseguia acreditar no que acontecera.
- Ah, que isso! Ele é bonitão, você realmente vai deixá-lo ir embora? – ela riu.
- Talvez você esteja certa, acho que eu devia ligar. – respondi. Ela não parava de me encarar, o que estava me dando nos nervos, eu detestava que me encarassem.

Saímos do teatro e dirigimos de volta para São Bernardo, era apenas 40 minutos de distancia, não falei muito no percurso, passei a maior parte do tempo pensando no Joe e na musica que ele tocara para mim. Para mim. Eu queria gritar aos quatro ventos. Ninguém havia cantado uma musica para mim antes. Eu não conseguia parar de sorrir. Minha amiga flagrou meu sorriso, ela provavelmente “lia minha mente” de alguma forma, não seria difícil imaginar o que eu estava pensando.

Fomos direto para a casa dela, ela havia prometido cozinhar o jantar depois do show, fora um dos jogos sujos que ela usou para me convencer a ir ao show. Ela era uma ótima cozinheira, eu sempre amava a forma como ela tentava criar pratos novos. Assim que chegamos, sentei-me ao sofá, examinando o pedaço de papel que ele havia me entregado, eu queria poder ligar imediatamente. Mas e se ele não atender? Pensei negativamente, minha amiga me observava da cozinha e gritou “Ligue menina, não é todo dia que você conhece uma pessoa assim, não desperdice mais tempo”. Ela tinha razão, então corri para o banheiro, fechei a porta e comecei a discar seu numero no meu telefone. Eu podia sentir meu estomago embrulhar de ansiedade, eu fitei o telefone por alguns minutos, “Devo ou não devo?” eu sussurrava. Mas então, apenas fechei os olhos e apertei o botão “Ligar”, depois de alguns segundos eu podia ouvir os toques. Um toque, dois... Ele não vai atender, meu Deus... eu estava quase desistindo, eu não podia agüentar aqueles sentimentos negativos. Mas quando eu ia fechar o flip, ouvi uma voz.

- Olá? – ele disse, era difícil ouvi-lo devido ao barulho no fundo.
- O-Oi, é a Melissa. – respondi feliz por ele não poder ver meu rosto corando do outro lado da linha.
- Ohhh, oi Melissa, como está? Eu não tinha certeza se você ligaria ou não. – seu tom era de empolgação, o que me fez sorrir. – Então, você gostou do show?
- Porque eu não ligaria? E claro que eu gostei, especialmente depois daquela dedicação. – respondi tentando esquecer minha timidez. Ambos rimos.
- Bem, você sabe... sempre tenho que escolher um alvo diferente em cada show que faço. – ele disse. Silêncio. – Ei, estou brincando.

Eu ri, embora não tivesse achado graça, porque os homens sempre utilizam piadas injustas contra as mulheres? Alguém deveria contar para eles que realmente não gostamos disso.

- Mas, você mora em Santos? – perguntei, mudando de assunto.
- Não, moro próximo a São Paulo, vou lá às vezes porque realmente gosto de praia, faz com que eu me sinta renovado. – ele respondeu. – e você? Onde mora?
- Em São Bernardo, você conhece? – perguntei, por um segundo torci para que ele pudesse estar aqui.
- Claro e, que coincidência, estou em São Bernardo nesse exato minuto, tive que dar carona a um amigo que mora próximo ao centro. – ele respondeu. Eu fiquei muda novamente, dessa vez, por surpresa, eu sempre esqueço que eu não deveria pensar às vezes. Então ele perguntou. – Está ocupada?
- Não, não estou. Apenas vim para a casa da minha amiga para comermos algo. – respondi, tentando não pensar mais, embora, eu adorei a idéia de meus pensamentos se tornarem reais naquele momento.
- Então, o que você acha de fazermos algo? Poderíamos ir a um restaurante e jantar, isso se você estiver com fome. – sua voz parecia empolgante.
- Hmm, claro, eu adoraria. Onde poderíamos nos encontrar? – eu estava tentando esconder minha excitação, ele não precisava saber que eu estava ansiosa para encontrá-lo.
- Você conhece o Shopping Metrópole? – ele perguntou. Respondi fazendo um som com a boca. – Ok, então nos vemos lá em... 20 minutos?
- Perfeito. Esperarei na frente da entrada do estacionamento.
- Ok Mel, te vejo daqui a pouco, dirija com cuidado. – ele respondeu. Ele me chamou de Mel, MEL. Sorri novamente.
- Até. – eu desliguei. Sempre detestei a forma como eu falava, eu certamente soava como uma pessoa extremamente entediante, mas não era culpa minha, eu era apenas muito tímida e não muito boa em conversas, principalmente com “amigos” novos.

Assim que desliguei, sai do banheiro. Contei à minha amiga o que acabara de acontecer e disse a ela que eu precisava de algo bonito para vestir, algo sedutor. Eu estava feliz por estar em sua casa, ela definitivamente tinha um excelente gosto para roupas, eu estava em boas mãos. Ela andou até seu quarto, quase dançando de entusiasmo, seu guarda-roupa era repleto de todos os estilos – vestidos, roupas casuais, elegantes. Ela me encarou por um momento esperando que eu dissesse o que eu tinha em mente. “Não sei” eu disse encolhendo os ombros, sou péssima em escolher roupas, principalmente quando estou sob pressão. Ela riu e escolheu algumas peças, as experimentei. Era difícil encontrar algo que servisse bem. Eu estava quase desistindo quando encontrei a combinação perfeita. Um par de jeans pretos com lycra, uma blusa roxa comprida e um Scarpin. Não muito elegante, não muito casual... estava perfeito, ela me ajudou com a maquiagem, eu queria ficar bonita, mas não de uma forma vulgar. Ao finalizar, eu parecia uma princesa, ao menos minha amiga achava que sim, porque eu nunca me via dessa forma.
A agradeci com um abraço apertado, ela me desejou boa sorte a medida que eu corria em direção a porta. Eu tinha que me apressar, já estava atrasada. Entrei no carro e dirigi rapidamente, as ruas estavam lotadas, então tentei pegar um atalho para o shopping. Eu consegui chegar mais cedo do que eu esperava, o atalho provavelmente me rendeu 10 minutos extras. Parei o carro enquanto olhava para os lados na tentativa de encontrá-lo, mas o lugar parecia deserto. Liguei para ele... com medo de que ele daria o cano. Ele atendeu.

- Oi, onde você está? – eu disse, tentando não soar desesperada.
- Estou bem aqui esperando por você, consegue ver um carro verde? – ele respondeu, sussurrei de alivio. Avistei seu carro não muito longe do meu. Usei os faróis da frente para mostra-lhe onde eu estava. – Ahh, te achei. Então, vamos no meu carro? A trago de volta quando terminarmos. – ele perguntou, eu não poderia dizer não àquela voz.
- Claro. Vou estacionar. Te vejo em um segundo. – eu disse, desligando o telefone. Estacionei o carro próximo a outros, nesse caso um ladrão teria mais opções para escolher roubar, ao invés de apenas o meu.

Olhei no espelho retrovisor por um segundo, verificando se minha maquiagem estava borrada. Apanhei minha bola e sai do carro. A janela do carro dele estava aberta e ele me encarava com um ar investigativo à medida que eu caminhava ate ele, aquilo de fato havia me feito corar.
Ele saiu do carro e abriu a porta do passageiro para mim, quase derreti com aquele gesto. Meu conto de fadas perfeito, pensei sorrindo enquanto me sentava ao banco, ele fechou a porta após ter certeza de que estava confortável. Ele entrou e ligou o radio, ele ouvia um CD com musicas instrumentais, notas de pianos ecoaram pelo carro, uma escolha muito romântica, não poderia ter sido mais perfeita.

- Você gosta de churrasco? – ele perguntou examinando minhas mãos. Elas se moviam ininterruptamente, revelando minha ansiedade.
- Claro, você conhece algum lugar bom em que possamos ir? – perguntei, tentando soar empolgada com a idéia, embora, eu realmente não me importasse onde fossemos.
- Vamos ao Varandao, é uma ótima churrascaria. – ele disse sorrindo. – Você já esteve lá?
- Não, mas sempre tive curiosidade em conhecer, acho que hoje seria uma excelente oportunidade. – retribui o sorriso. Eu não falava muito, como sempre, e eu me odiava por aquilo.

Um silencio constrangedor pairava no ar no caminho para o restaurante, minhas respostas eram sempre curtas. Eu gritava comigo mesma dentro de minha cabeça e, no fim, prometi que agiria diferente assim que chegassemos ao restaurante. Eu jamais me perdoaria se ele me detestasse depois de nosso primeiro encontro. Era realmente um primeiro encontro?
Finalmente chegamos, o caminho fora quase uma tortura para mim. Ele saiu do carro e abriu a porta para mim novamente, estendendo a mão. Tive a mesma sensação de prazer de antes, era admirável que ainda haviam cavalheiros nesse mundo. Ele segurou minha mão para me ajudar a levantar, seus olhos verdes e pequenos encontraram os meus... ambos sorrimos. Ele deu um passo para frente para fechar a porta atrás de mim e virou-se para examinar minha roupa.

- Uau, você está realmente Linda. – ele disse enquanto agarrava minha mão para me virar em um circulo. Senti-me flutuando, de felicidade. – Como uma princesa. – ele acrescentou, rindo. Ele notara minha face enrubescida.
- Obrigada. – respondi, sorrindo, virando minha cabeça em outra direção para disfarçar meu embaraço.

Andamos em direção a porta, ele esticou o braço e pegou minha mão no ar, seus dedos vagarosamente se enlaçaram nos meus. Eu podia sentir seu aroma invadir minhas narinas, sua fragrância me lembrava a brisa do mar. Meu rosto estampava um sorriso enorme, por pensar que eu literalmente encontrara o homem dos meus sonhos.

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