Beco sem saída

By 11:04 AM

Eu andava sem rumo por uma rua escura, meu dia havia sido ridiculamente estranho. Então resolvi divagar cidade afora, todos haviam votado contra, dizendo que eu provavelmente não chegaria viva em casa. E quem se importa? Talvez fosse esse meu objetivo. Porque não?
Era uma noite estupidamente quente, eu descia rapidamente uma ladeira, meus olhos semi-cerrados, fitando o fim do beco. O vento suavemente tocava meu rosto que ainda ardia pelo calor. Minha respiração ofegante me lembrava que eu deveria parar de fumar.

Ao chegar ao fim do beco, olhei para os lados, decidindo rapidamente qual caminho tomar. Abruptamente, virei à direita, mantendo a mesma velocidade de antes. Meus olhos examinavam a rua estreita, o asfalto esburacado e as poças com água da chuva. Eu me aproximava delas, aterrando-lhes meus pés enquanto sorria como uma tola pela água que espirrava. A cada passo, eu notava que a rua ficava mais escura, engoli seco e mantive o ritmo enquanto compunha um poema em minha cabeça.

Uma rajada de vento fez meu corpo se encolher, mas tentei ignorar o cenário sombrio a minha volta, e em meio as passadas largas, eu discutia comigo internamente. Eu deveria ter ouvido aos outros, porque sempre sou teimosa?
Minha discussão mental foi interrompida por um barulho vindo de trás de mim, soava com uma lata caindo ao chão. Uma sensação de temor percorreu meu corpo e tentei acelerar ainda mais o passo, ignorando meu pulmão que já gritava. Tentando não cair, olhei rapidamente para trás e senti um certo alivio ao notar que apenas a escuridão me seguia.

A rua não parecia ter fim, eu quase corria agora, o som dos meus pés ao chão ecoavam pelo ar, misturando-se ao vento que uivava ao meu redor, quase gargalhando de minha própria cilada.
A falta de ar fez com que eu me desconcentrasse, tropecei em minhas próprias pernas e meu corpo se arremessou violentamente ao chão, a água lamacenta espirrou em meu rosto e soltei um grunhido a medida que meu peito chocou-se contra o asfalto. Uma dor indescritível se espalhava por meu corpo, senti um nó se formando em minha goela, e ao abrir a boca para tossir, arregalei os olhos ao notar a poça de sangue no chão. Eu tossia exasperadamente enquanto tentava encher meu pulmão de ar. Minhas mãos se apoiaram ao chão, na tentativa de me erguer, mas a dor o tornou impossível.

Meus olhos se encheram de lagrimas, será este meu fim? Morrer assim, sozinha? Fechei os olhos enquanto sentia as lagrimas tocando gentilmente meu rosto, aquecendo-o. Fiquei ali, imóvel, enquanto cada centímetro de meu corpo formigava, já não doía tanto, acho que me acostumei à dor.

Ouvi passos, um andar tranqüilo, de alguém que caminhava serenamente, sem pressa. Notei que vinha em minha direção, pois o som dos passos aumentavam freneticamente. Mantive meus olhos fechados, enquanto sentia a morte me abraçando.

Silêncio.

Algo frio me tocou e me ergueu do chão, tentei abrir os olhos, mas não pude lutar contra meu corpo quase morto. Uma respiração ofegava em meu ouvido. Quem é? Pensei. Esperando ter conseguido dizer em voz alta. Nada.

Senti uma leve pontada em meu braço e uma sensação extremamente quente passou a percorrer meu corpo, a temperatura aumentava à cada segundo, como se eu estivesse em chamas, literalmente. O ardor lentamente dominava meus membros, um por um.
Eu agora sentia a quentura envolvendo meus órgãos, finalmente chegando ao coração, tornando as batidas desiguais. Senti uma pontada imensa em meu peito, o que me fez pular, arregalando os olhos.

Um garoto extremamente jovem me encarava, curioso, seus cabelos negros e encaracolados se moviam como molas com o soprar do vento, seus olhos acinzentados e profundos me fitavam travessamente, seu rosto era branco como a neve. Meus olhos deslizaram para sua boca, sua respiração suave escapava por seus lábios semi-abertos. Notei uma gota de sangue que levemente borrava o canto de sua boca. Ele abriu seu rosto em um sorriso, revelando seus dentes afiados.

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