O estranho misterioso

By 9:10 PM


Estava cá com os meus botões pensando no quanto as pessoas adoram uma desgraça. É como se houvesse uma necessidade em cada um em se manter pra baixo, sem esperanças, com ódio do mundo e o pior de tudo, com medo.

Aqui em casa, por exemplo, se fosse possível, meus pais assistiram jornais durante as 24 horas do dia. Eles assistem a praticamente todas as edições que passam nos canais convencionais e o mais engraçado é que na maioria das vezes, eles reveem notícias que já tinham visto na edição da manhã ou do almoço. Às vezes, chego em casa e me deparo com o meu pai sentado no sofá, vendo a algum dos jornais da noite, que de certo estará falando sobre algum desastre familiar, que virou o tópico da semana, e de cara, eu lanço "Nossa, de novo?" e ele "é bom manter-se informado", e então eu me viro, sem responder, mas pensando, "Porque eu preciso saber e depois rever que um cara matou alguém na esquina por vingança?", eu concordo que devemos nos manter informados em relação a coisas que possam afetar o nosso dia-a-dia, mas na minha opinião, não há porque ficar vendo a esses reporteres que só destroem a nossa visão em relação ao mundo. Concordo que as famílias que sofrem tais atrocidades, merecem ter justiça, mas de que forma ajudaremos sentados na frente da televisão sugando a todo aquele sangue que jorra da tela?

Recentemente, li um livro interessantíssimo, diga-se de passagem. Desde os tempos da faculdade, eu sempre via Mark Twain aqui e ali, e as histórias que ele escrevia eram sempre infantis, meio sem graça, mas há pouco tempo, me foi apresentada uma obra rara e não muito conhecida de Twain, o nome é "O estranho misterioso". Tentei procurá-lo em livrarias e descobri que não era mais vendido, então, eu e meu namorado só fomos encontrá-lo em um sebo por um preço bem salgadinho, mas, movidos pela curiosidade, acabamos adquirindo-no mesmo assim.

Pra resumir, o livro retrata, em detalhes sórdidos e macabros, a forma como a raça humana é podre, em todas as formas possíveis. A medida em que eu avançava os capítulos, relembrava de atrocidades que já "presenciei" ao longo da minha vida, seja na TV, na rua ou então, contada por alguém e então, aquele nó ia crescendo e crescendo e o realismo exacerbado acabou me deprimindo, a tal ponto que, eu abandonei o livro faltando meras 50 páginas pra terminar. Ele é bom, não me entendam mal, o problema é que eu tenho sérios problemas em saber filtrar sentimentos. Eu sofro pelos outros, e esse é um dos motivos pelo qual eu quase nunca assisto/leio jornais, porque eu me coloco no lugar da pessoa e me deprimo de forma absurda, as vezes é tanto que eu não tenho vontade de levantar da cama. Venho lutando contra isso há anos mas, como ainda não encontrei uma forma de filtrar isso tudo, eu optei por evitar, embora seja difícil em alguns momentos. Eu prefiro acreditar que a vida e o mundo ainda tem o seu lado belo, por mais que muitas pessoas insistam em tentar nos provar do contrário. Eu prefiro tentar enxergar o potencial que existe no botão de uma flor do que olhar a parte morta de uma planta. Acho que eu tento ser meio Louis Armstrong, e acreditar que o mundo é maravilhoso.

Enfim, vou encerrar o post com um trecho do livro do Mark Twain, e recomendo a leitura, principalmente aos fãs do autor!

“- É Deus que determina a linha de nossa vida?
- Que a predetermina? Não. As circunstâncias e o ambiente do homem que a determinam. O primeiro ato de um ser humano determina o segundo e tudo o que vem depois. Mas suponha, só apra argumentar, que o homem pudesse “pular” um desses atos. Um ato aparentemente insignificante, por exemplo. Suponha que aquele ato tivesse sido determinado para acontecer num certo dia. Numa certa hora, minuto, segundo e fração de segundo, o homem deveria ir até o poço. Mas ele não vai. A vida desse homem vai mudar totalmente a partir desse momento. Daí até o túmulo, será totalmente diferente da vida que seu primeiro ato de criança tinha lhe determinado. Na verdade, pode ser que ele, se tivesse ido até o poço, terminasse sua vida sentado num trono. Deixar de ir ao poço lançou-o numa carreira que vai levá-lo à mendicância e a uma cova de indigente. Por exemplo: se a qualquer momento, na infância, digamos, Colombo tivesse”pulado” o mais insignificante e pequenino elo da cadeia de atos projetada e tornada inevitável por seu primeiro ato de bebê, isso teria mudado toda a sua vida subseqüente e ele teria se tornado monge e morrido obscuramente numa aldeia italiana, e a América só teria sido descoberta doisséculos mais tarde. Eu sei disso. “Pular” qualquer um dos bilhões de atos da cadeia de Colombo teria mudado totalmente sua vida. Eu examinei o bilhão de carreiras possíveis para ele, e só naquela única carreira ocorria o descobrimento da América. Vocês, humanos, não suspeitam que todos os atos têm tamanho e importância, mas é verdade. agarrar uma determinada mosca é tão significativo para o destino de vocês quanto qualquer outro ato determinado.”


E não se esqueçam de tentar encontrar o riso entre tantas faces tristes, faz bem as vezes :)

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