One last breath

By 10:26 AM



Aos poucos fui voltando do mundo dos sonhos, lentamente registrando o som da televisão que ainda estava ligada. Olhei no relógio, eram 8:20 da manhã, ainda cedo demais pra começar o dia, então me virei para o lado e fechei os olhos na tentativa de dormir um pouco mais. Mas o plano imediatamente foi interrompido pelo tocar do telefone.
Ainda desperta, porém um pouco lenta, o atendi, com a voz rouca e pensando que vendedor eu iria xingar esta manhã. Mas, para minha surpresa a voz de meu tio ecoou do outro lado da linha, um tom desesperado, que chamou por minha mãe. Me levantei em um piscar de olhos, lutando contra a tontura e a chamei, ela correu para o meu quarto e enquanto ela o ouvia falar, eu a fitava curiosa, e foi ao ouvi-la dizer "Como assim? Estou indo pra aí" que meu coração disparou. Ela desligou o telefone e eu perguntava ininterruptamente o que havia acontecido, e ela respondeu, com um tom incrédulo "Seu tio disse que sua vó faleceu". Nos olhamos por vários segundos e ambos olhares diziam que não era possível e então, nos trocamos rapidamente e seguimos para a casa dela, com os pensamentos confusos, a ansiedade evidente em nossas respirações.

Ao entrarmos na rua, avistei o resgate em frente à garagem, estacionei o mais rápido que pude e praticamente me teleportei para dentro da casa e me deparei com pares de olhos vermelhos e um corre-corre desesperado. E ao olhar no fim do corredor, entre os paramédicos eu pude vê-la, deitada ao chão, imóvel. Estava sendo feito o processo de reanimação, e embora a realidade estivesse diante de nossos olhos, a esperança ainda pairava no ar.
Os trinta minutos mais longos de nossas vidas passaram, os minutos cruciais, e foi na última batida do relógio que vi um de meus tios vindo em nossa direção, lágrimas escorriam por sua face, e sem poder falar, ele limitou-se a fazer sinal de não com uma das mãos, o sinal de que tudo estava perdido.
Meus olhos automaticamente deslizaram para minha mãe, que levou suas mãos ao rosto e caiu em prantos, ainda não acreditando em toda aquela situação.
E então meus olhos percorreram cada centímetro da sala com paredes amareladas, as centenas de fotos em cima da lareira, fotos que me fizeram viajar no tempo e recordar de um passado distante, dos anos e anos em que cresci ali e fui feliz. Me lembrei das noites em que ela nos dava (a mim e a minha irmã) um estojinho de manicure e nos pedia pra pintar as suas unhas, ela sempre usava um rosinha cintilante, bem discreto e embora fossemos péssimas no trabalho, ela sempre mantinha um sorriso alegre no rosto e nos elogiava e, após terminarmos a horrível tarefa, ela nos pedia pra ir até o guarda-roupa dela e escolher um bombom. Ela guardava as caixas de bombons nos armários, pq era o único lugar em que meus tios não as encontrariam, pois, os bombons eram exclusivos dos netos.
Haviam também as noites de natal, em que ela sempre parava para observar a família toda reunida, rindo, brigando, cantarolando, e ela sorria, como se aquele momento fosse o maior presente que ela pudesse receber.

E aquela manhã, ao vê-la deitada na cama, coberta por um edredom, seu rosto sereno e pálido, eu pude ouvir novamente a sua voz dizendo "Karininha, vai lá na padaria comprar pão e bolo pra tomarmos café", eu ia correndo e voltava saltitante, pra encontrar aquela mesma toalhinha bordada a mão posta sobre a mesa.

E hoje eu choro, feliz pois tive alguém tão puro em minha vida por todos esses anos e também por ter que dizer adeus. Onde quer que vc esteja Vó, espero que esteja em paz. Sentiremos sua falta.

"Would you hold my hand, if I saw you in heaven? Would you help me stand, if I saw you in heaven?"

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